quinta-feira, abril 19, 2007

go down it's river!



Não sou de fazer homenagens. Na verdade, nem sei fazer homenagens. Não sei se é porque eu acho uma coisa dificílima elogiar, ou se é pq acho que isso não é pra ser feito assim, de qualquer jeito, da mesma maneira que não se deve dizer "eu te amo". Amar é, dependendo da pessoa, foda! A pessoa se dar assim se perde fácil. É preciso maturidade para amar.

Na foto há meu pai (quando eu bato foto quando também pretendo aparecer, ele muitas vezes aparece assim, se esforçando pra aparecer. A gente acha engraçadíssimo. Ironia ou não, quem teve aulas de fotografia foi ele. Mas isso foi a muito tempo. Hoje a gente tem aula de bom humor e ciência e Deus com ele. E gentileza tb).

Há também mãe (Ela aparecendo rindo e rindo deliciosamente sempre faz da foto uma foto muito melhor. Ela não faz a menor idéia de como é difícil ser como ela. Talvez por isso que é melhor que ela não faça mesmo. Ela também talvez ache que é melhor que ninguém seja como ela, mas eu não acho. As pessoas que mais admiro, e as pessoas que mais são admiradas que eu admiro ou goste muito tem um ou mais traços dela. O único problema é que a área se encaixa muito com o cotidiano, então ela fala muitos termos próprios que me confundem bastante. Mas sei que não é Complexo de Édipo eu dizer isso, devo sublinhar).

E há também minha irmã (Ela tem objetivos bem definidos. Um deles é tentar ser pai e mãe e ela mesma ao mesmo tempo. Ela tem conseguido cada vez mais. Ás vezes, talvez por isso, tem um hábito terrível de ordenar. Foi dela que peguei esta foto. É dela que tento pegar um pouco também essa coisa de dividir e compartilhar. O termo irmão, sabe? esse mesmo).

E há eu, tentando viver por mim mesmo. Eu escolhi assim desde que nasceu meu eu mais egoísta. Só que quanto mais desvinculado eu vou, mais ligado eu fico a eles. É comum talvez reparar essas coisas. Só que eu não sei por que quanto mais perto ficamos, mais as coisas desimportantes ficam em evidência, e por outro lado as coisas mais importantes ficam mais evidência quando estamos longe... Bom, o porquê não sei, mas imagino que seja melhor assim.

...

Se reparar bem, a foto foi tirada em um barco correndo em um rio. O rio é um objeto de inspiração bastante comum e muito frutífero. Pra mim, sempre me soou como Tempo:

Nunca é o mesmo rio quando você olha mais que uma vez. Rio só pára quando seca ou quando é um lago de água. Nasce em uma nascente, singelo e puro, cresce como uma corrente, se desenvolve se juntando com outros rios e se tornando Uno, e morre se desaguando e se salgando. Rio sempre vai de um lugar alto e desce, ininterruptamente, até chegar no mar (quando é interrompido, forma lagos que podem, ocasionalmente formar outros rios ou pode ser ele mesmo um mar improvisado). Por sua vez, Mar é onde se diz ser a origem da vida. Em Ainunlidale, de Tolkien, a música criadora do universo ecoa um pouco nas ondas da Beira-Mar, e onde os monstros ganharam pernas, e de onde vieram os habitantes do mundo. Estranho o rio morrer onde tudo começa, não?

Rio é o que dá água potável, é o que faz as bacias, e é o q alimenta os interiores com a vida (água me soa como Essência). No rio, há peixes cujo sentido da vida deles é ir contra correntes irredimíveis e subir penhascos que descem, somente para chegarem nas nascentes e nascerem seus filhos, que, ingênuos e puros, descerão os rios, rindo do esforço que seus pais tiveram até perceberem que terão que fazer o mesmo. Se você polui sua nascente, você polui ele por inteiro. Rio dá direção e sentido. Rio tem começo e fim, mas nunca termina de ser rio.

Minha irmã nos abraça e eu perpetuo o instante batendo a foto e meus pais pagam. E nossos rostos estão assim. É por momentos assim que sempre espero. Estamos num rio e sabemos que um dia o rio desagua no mar. Mas o rio não deixa de ser rio. Por isso não tenho medo, pois eu sei que amor é isso mesmo:

É navegar o rio abraçado, não poluí-lo e perpetuá-lo.

...

(Eita, mas lá não era um braço de mar ao invés de um rio? An... Bom, deixa pra lá, o post tá feito.)

music of the day: Peter Gabriel - Mercy Street

"Pela profecia o mundo ia se acabar
Pelo vagabundo deixa mundo como está
Pelo ser humano pelo cano o mundo vai ou não
Pelo cirandeiro o mundo inteiro vai rodar

Ciranda por ti, Ciranda por mim
Roda na ciranda que é pro não virar pro sim
Ciranda que vai, Ciranda que vem
Roda na ciranda que é pro mal virar pro bem"
Eduardo Krieger - Ciranda do Mundo

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6 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Seus posts são verdadeiras produções... artísticas (ou não). São produções. Merecem prêmios.


...
Obrigada?


bjos!

9:05 AM  
Blogger Unknown said...

fã!
(*)

2:26 AM  
Anonymous Anônimo said...

vc é o canceriano mais canceriano que eu conheço!!!

p.s: o spaceblog é legau, neanh?

8:35 PM  
Blogger Manoela Lemos said...

eu adoro te ler!

7:20 PM  
Blogger Tiago Azevedo de Aguiar said...

vai atualizar mais não?
:D

3:41 PM  
Blogger Unknown said...

Adorei seus verbetes e a sua escritura de um modo geral! Definições tão gentis e puras e um rio como na Terceira Margem... Lindo!

3:36 PM  

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