terça-feira, março 16, 2010

Sing it!

O que se deseja escrever aqui é o que o homem não escreve, que nem Manoel de Barros. O que se deseja cantar aqui é um texto, com melodia, cor, textura, bom sabor e de bela imagem esculpida, e movida em épica história de amor, guerra e paz, seja movida em quadros ou em frames.

Mas não é possível, querido senhor empoeirado, pois teu postador é um pé-rapado. Não. O que se quer desejar é tocar o substantivo abstrato. Mas não se pode tocá-los, pois não posso sequer tocar o meu adjetivo.

O que se deseja é cantar.

Porque cantar é como se fosse não morrer.

Como se pudesse não esquecer que viver, mesmo só, é que tem mais razão.

Cantar como o artista quando coisa.

Quando a cada frase melódica jogasse enxada na terra. Jogasse a semente, e a enterrasse, molhada, e esperasse.

Esperasse como quem espera o navio, avião, trem, carro, ônibus, um ponto no horizonte, o segundo no tempo.

Mas não adianta. Não chega.

E continuo ainda assim a cantar. Porque cantar é mais do que lembrar, ter tido aquela semente, esperar, sonhar...

Canto neste blog como quem não quisesse se importar do que os homens se importam. A começar do tempo. A terminar do sucesso. Como quem quisesse a morte, sem se livrar da vida. Todos fazem isso, dizem, mesmo sem dizer, o q ser. E veja como são felizes com isso!

É para isso que eu canto. A felicidade autêntica. A capacidade de não se importar. A liberdade de si mesmo. O livre-arbítrio que Deus nos deu. Cantar é ter o coração daquilo.

Cantar neste blog o que não é meu. O que é plagiado. O que a ninguém interessa.

É para desprezar o cultural (que importa que isso seja um blog, um caderno, areia na praia, fumaça no céu, letra de música, fofoca, seja lá o que for?), e o biológico. Cantar o que está fora disso. Cantar o futuro, que é o que é daqui a um segundo de quando estiver pensando esta frase. (Por que achas que este blog se chama assim?)

Cantar para além dos homens e de suas estúpidas sabedorias. E não parar, irresponsavelmente. É preciso não morrer, para não morrer só.



music of the day: O que te faz assobiar quando nem percebes.

"I remembered once, in Japan, having been to see the Gold Pavilion Temple in Kyoto and being mildly surprised at quite how well it had weathered the passage of time since it was first built in the fourteenth century. I was told it hadn't weathered well at all, and had in fact been burnt to the ground twice in this century. "So it isn't the original building?" I had asked my Japanese guide.
"But yes, of course it is," he insisted, rather surprised at my question.
"But it's burnt down?"
"Yes."
"Twice."
"Many times."
"And rebuilt."
"Of course. It is an important and historic building."
"With completely new materials."
"But of course. It was burnt down."
"So how can it be the same building?"
"It is always the same building."
I had to admit to myself that this was in fact a perfectly rational point of view, it merely started from an unexpected premise. The idea of the building, the intention of it, its design, are all immutable and are the essence of the building. The intention of the original builders is what survives. The wood of which the design is constructed decays and is replaced when necessary. To be overly concerned with the original materials, which are merely sentimental souvenirs of the past, is to fail to see the living building itself."

Douglas Adams , Last Chance to See

2 Comments:

Blogger C. Maria said...

Engraçado... Ia lendo e sentindo vontade de cantar... E sorria ao mesmo tempo. Acho que fiquei um pouco silenciosa nesses últimos tempos e agora posso, enfim, voltar a cantar. Sinto vontade de voltar a cantar... Cantar várias coisas e cores e rimas e amores e livros e sabores e filmes e flores e jardins e odores... Nossa, acho até que vou postar isso no blog. hehehe
Beijinho, moço!
Saudade

6:44 PM  
Blogger Monocóvica said...

Você me chama de assimétrica no seu blog!! kkkkkkkk
ADOREI!
:D

2:27 PM  

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